O aumento da criminalidade e da violência em todo o mundo tem gerado várias reações na população, desde medo, revolta e até a indesejável necessidade de vingança. A crença de que “bandido bom é bandido morto” espalha-se pela  sociedade, mas será que isso resolve a situação? O que leva as pessoas a cometerem um ato de violência?

Epidemia de criminalidade

Gary Slutkin, especialista em controle de epidemias com larga experiência mundial em erradicação epidêmica, faz um paralelo em uma de suas palestras entre violência e epidemia.

Segundo Gary, a violência pode ser comparada a uma doença epidêmica, considerando que violência gera violência. Sendo assim, o fluxo da violência precisa ser interrompido por meio de um processo que envolve orientação, afastamento do foco de contágio (criminosos) e mudança de normas.

O controle da criminalidade passa por educação, persuasão e terapia para mudança de comportamento.

Efeito Lúcifer

Philip Zimbardo, professor da Universidade de Stanford, psicólogo e autor do livro Efeito Lúcifer, através da análise de casos de violência humana, mostra como pessoas comuns podem se transformar em monstros movidas pelas situações e pelo sistema.

O mal é um exercício de poder e pode vir à tona em qualquer pessoa movido por três fatores:

  • Disposição: O mal já está dentro da pessoa, só precisa de um motivo para aflorar.
  • Situação: O ambiente externo, muitas vezes, motiva a pessoa a cometer atos de maldade.
  • Sistema: O sistema corrompe, o poder exercido sobre outro pode mudar completamente a mentalidade e o comportamento de quem é subjugado.

Neste sentido, pessoas vistas como do bem, dependendo do meio, da situação e do poder que as influencia, podem em pouco tempo tornarem-se pessoas do mal.

Um de seus experimentos mais famosos, o Experimento da Prisão de Stanford, foi fundamental para mostrar que qualquer pessoa, na situação em está sujeita a ter comportamentos considerados imorais.

Existe correlação entre doença psiquiátrica e criminalidade?

O ser humano tem medo do desconhecido e a razão do nosso medo em relação às doenças mentais é a falta de informação. Muitas vezes somos bombardeados por informações de casos notórios em que a sanidade mental da pessoa é questionada.

O caso do menino Marcelo que matou os pais e tios e depois se suicidou, o assassino do cartunista Glauco, a morte do cineasta Eduardo Coutinho nas mãos de seu filho portador de esquizofrenia, são histórias que levam a uma correlação entre doença mental e criminalidade e agressividade.

A verdade é que pessoas com transtornos psiquiátricos cometem menos crimes que as pessoas sem diagnóstico psiquiátrico. Pesquisadores americanos utilizaram uma abordagem diferente para dissociar criminalidade e insanidade, e constataram que por trás dos crimes praticados por pacientes psiquiátricos, apenas uma pequena parcela estava ligada a sintomas que eram as causas dos delitos.

E mesmo no caso de crimes cometidos por pacientes portadores de algum diagnóstico, na maior parte das vezes, os delitos foram perpetrados pelos mesmos motivos que levam cidadãos sem diagnóstico, razões como pobreza, desemprego, falta de um teto, abuso de substâncias químicas. Outros estudos indicam que ter uma doença mental, na realidade, aumenta o risco de o indivíduo ser vítima — e não autor — de atos violentos.

Violência gera violência

Há que se estudar os motivos que levam à violência e criar ferramentas de controle compatíveis com determinados casos e situações. Um sistema penitencial mais humanizado, com vistas à mudança comportamental e uma polícia melhor preparada para lidar com os diversos tipos de crime, pode surtir grande efeito na diminuição dos níveis de criminalidade. As leis são as respostas encontrada pela sociedade, em comum acordo, para inibir o crime ou evitá-lo.

Sigmund Freud em “O futuro de uma ilusão” diz que o ser humano regulou sua existência com a natureza por meio da necessidade de sobrevivência e logo necessitou regular as ações entre os homens. Ele afirma “por um lado, inclui todo o conhecimento e capacidade que o homem adquiriu com o fim de controlar as forças da natureza e extrair riqueza desta para a satisfação de suas necessidades humanas; por outro, inclui todos os regulamentos necessários para ajustar as relações dos homens uns com os outros e, especialmente, a distribuição da riqueza disponível”.

Outra causa que influencia nas estatísticas é a banalização dos atos de violência. Grande parte dos homicídios – os crimes de efeitos mais graves, porque são praticados contra a vida – poderiam ser evitados com um pouco mais de reflexão sobre a gravidade do ato e das suas consequências.

Entre 2011 e 2012, os homicídios por impulso ou por motivos fúteis totalizaram entre 25% e 80% dos assassinatos com causas identificadas no Brasil, a depender do estado. Em São Paulo, por exemplo, 83% dos assassinatos com motivação esclarecida foram cometidos por impulso ou por motivo fútil.

Como vimos, existem muitos mitos em relação a esse tema complexo. Existem fatores sociais e fatores individuais que interferem no comportamento dos seres humanos, e há  séculos a sociedade vem criando maneiras de controlar a agressividade inerente aos homens.

Algumas coisas já são bem conhecidas, como a educação, saúde e condições de vida digna colaboram para a queda da criminalidade. Bandido bom não é bandido morto. Bom é dar condições físicas e sociais para que todos possam exercer a sua cidadania de maneira plena.

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