Como seria se pudéssemos deletar todos os momentos ruins da nossa memória? Como seria poder lembrar apenas daquilo que selecionamos? O filme Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças, produzido em 2004 e vencedor do Oscar de Melhor Roteiro Original para Charlie Kaufmann e Pierre Bismuth, mostra o relacionamento entre Joel (Jim Carrey) e Clementine (Kate Winslet). A produção retrata como pode ser difícil lidar com os sentimentos de perda e aceitação do fim de um relacionamento amoroso. O enredo comprova que o sentimento de luto e a depressão podem surgir diante de um rompimento e acarretar sofrimento aos envolvidos, podendo levar à necessidade de tratamentos adequados, aliando psicoterapia e medicação.

Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças

O filme foi inspirado no poema “Eloisa to Abelard”, publicado em 1717 pelo inglês Alexander Pope. Joel e Clementine formavam um casal que por anos tentava fazer com que o relacionamento amoroso desse certo. Porém, mesmo com todas as tentativas, o esforço foi em vão.

Desiludida com o rompimento, Clementine resolve esquecer Joel definitivamente e se submete a um tratamento experimental no qual todos os momentos vividos pelo casal são retirados de sua memória. Quando fica sabendo da atitude de Clementine, Joel cai em depressão. O fato de ainda estar apaixonado por alguém que decide esquecê-lo completamente faz com que ele decida, também, tentar esquecê-la. O método acaba colocando Clementine em momentos de sua memória onde ela não tem participação.

Depressão e sentimento de luto

O filme aborda a depressão e o sentimento de luto, mostrando de um lado Clementine tirando Joel definitivamente de sua vida, enquanto este passa por um processo doloroso quando percebe que ela o quer esquecer totalmente.

Para Freud, não existe negativa no inconsciente, como também não existe esquecimento. Tanto em um mecanismo como em outro, revelamos o que não estamos inclinados a atribuir. “Prefiro esquecer”, “não vou engolir isso” seriam reações do ego a algum conteúdo que chegou ao consciente intelectual. “Isso é algo que eu preferia reprimir. Preferia não saber”. A função intelectual encontra-se separada do afeto.

Quantas vezes, na nossa vida não somos colocados diante dessas situações? Situações em que podemos afirmar ou negar algo, mas não introjetar esse conteúdo? Para a prática clínica, esses conteúdos são importantíssimos porque a quantidade de energia necessária para tal negativa demonstra a carga de afeto associada a tal representação. A negação não é mais do que querer destruir.

Clementine representa a melancolia, negando a perda e não se ligando às lembranças felizes que o relacionamento proporcionou, destruindo totalmente o passado para estabelecer um presente totalmente novo.

Totalmente impulsiva, demonstra sua pressa em mudanças de visual frequentes. A disposição em utilizar a tecnologia para negar a perda é a representação mais clara de sua personalidade impulsiva e da sua incapacidade de lidar com a dor da separação, procurando extirpá-la de uma vez por todas.

Joel, por sua vez, quando sabe da atitude de Clementine em apagá-lo definitivamente da memória, acaba se descaracterizando e buscando mecanismos para também tirar Clementine de suas lembranças. Joel representa a depressão através da descaracterização do “eu”, características  do luto, segundo Freud.

Amores líquidos

Podemos, também, abordar a ligação entre o filme e o livro “Amor Líquido”, de Zygmunt Bauman – autor falecido recentemente -, que trata da efemeridade que é dada aos relacionamentos facilmente descartados por uma sociedade cada vez mais despreocupada e desmotivada em estabelecer relacionamentos duradouros. As pessoas, pelo medo da perda, já não se esforçam para se entregar sinceramente ao amor e as dificuldades que ele apresenta. Com isso, relacionam-se sucessivamente, trocando de parceiro a partir do momento que sentem dificuldade.

Consequências psicológicas

Sofrer com a perda é normal. O luto faz parte da vida. O medo de Não saber lidar com o fim de relacionamentos amorosos ou com as dificuldades que ele apresenta, como ocorre no filme “Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças”, pode levar a um distanciamento afetivo e uma sensação constante de vazio. Quando chega-se a este estágio, o melhor a fazer é buscar a ajuda especializada. A psicoterapia   pode auxiliar no tratamento dos sintomas e recuperação da saúde mental.

A orientação de um psicoterapeuta é primordial para que a pessoa entenda sua postura diante da perda, e restabeleça a harmonia em sua vida e seus relacionamentos.

Se você está com dificuldade em superar o fim de um relacionamento, consulte um psicotareuta para saber como ele pode ajudar.

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